Tudo novo de novo

Estou sentada em uma cadeira de frente para a janela que fez a minha vista durante os últimos 18 meses. Tirei minhas roupas do guarda-roupa, fechei as malas, amontoei meus livros e fiquei olhando para tudo. Mais uma mudança. Mais uma despedida. Um novo ciclo que já tem se iniciado faz algumas semanas.

Dessa vez eu não vou para tão longe – são só duas ou três quadras – mas mesmo assim me faz refletir. Ainda que eu já tivesse chegado nesse lugar um pouco mais dentro de órbita, ainda sentia muito medo sobre o futuro, e ainda sinto. Mas agora é diferente. Eu queria poder colocar em palavras em todos os sentidos que me transformei, mas tudo ainda me parece muito turvo.

Quem me vê pode até pensar que continuo a mesma pessoa, mas existem coisas dentro de mim que não me deixam enganar: mudei demais. Se quando eu pisei dentro desse apartamento alguém me dissesse tudo o que eu viveria pelo próximo um ano e meio, eu chamaria de louco e provavelmente sairia correndo. Eu jamais imaginei que pudesse passar por tanta coisa. Situações que me transformaram, transformaram minha visão de mundo e de tudo o que eu quero para a minha vida.

Eu realizei sonhos, subi num palco pela primeira vez, assisti à um dos pores do sol mais lindos durante grande parte do tempo em que estive aqui, direto da janela do meu quarto. Também fiquei várias noites admirada olhando as luzes dos prédios e dos carros. Passei por crises, muitas vezes internas, que quase ninguém foi capaz de perceber, mas que me ensinaram muito. Conheci pessoas e muitas delas já não estão mais do meu lado, outras, mesmo que de longe, mostram o carinho que ficou. Vim para cá com dois lares e agora tenho três, um meu, um com meu pai e outro com a minha mãe, que decidiu que a vida é curta demais para a gente perder não vivendo. Ela me inspira.

Desentalei coisas que estavam presas na minha garganta há anos, tive conflitos e me livrei de pesos. Aprendi que dividir meu lar pode ser tão bom quanto morar sozinha e que com respeito e empatia todo mundo acaba bem. Percebi que me esquentar demais por coisas bobas ou que não dependem de mim, não vai me levar a lugar nenhum. Parei de reclamar tanto. Comecei a agradecer mais. Me vi rodeada de pessoas do bem e que me amam de um jeito como nunca havia percebido antes. Encarei no espelho uma pessoa mais feliz, disposta e de bem consigo mesma. Decidi que era hora de começar a dar um novo rumo para a minha vida e me joguei de cabeça.

Tive que sair do meu casulo e enxergar o mundo de várias outras formas. Assim como me portar diante dele com um jeito diferente também. Deixei tudo o que me prendia de lado. Descobri que prender não faz ninguém ficar. Que as amizades nunca são as mesmas para sempre. E que está tudo bem. Entendi os meus limites e muitas vezes fui além do que podia. Mas ok, são experiências. Recebi oportunidades que me fizeram ser mais confiante sobre coisas que eu gosto de fazer, mas que nunca achei que fosse muito capaz.

Aprendi a escutar. Não aos outros. Não às minhas vontades e muito menos o que eu gostaria de ouvir. Tudo ao redor ficou em silêncio e aí sim puder começar a ouvir a verdade. Aquela que vem de dentro e que a gente só sabe sentindo. Um propósito maior e mais sábio que o dos homens. A voz que vem de dentro ou que nos é mostrada por coisas materiais, mas vindo do universo e quem o administra. Aprendi também que sempre existirão provações muito mais tentadoras que farão o impossível para que a gente desista do que vem de dentro. Mas, acredite, no final das contas, não compensa. O caminho mais fácil (ou mais atraente) sempre nos levará ao fracasso, ainda que disfarçado de sucesso.

Passei a dar mais valor à minha família e ao meu relacionamento com ela. Senti meu coração apertar por pensar em oportunidades que desperdicei de passar mais tempo com o meu irmão. Minhas ligações com a minha mãe passaram a ser horas refletindo sobre a vida e o que ela tem a me ensinar. Meu pai foi tomando novamente aos poucos um pedaço do meu coração que andava despedaçado. Passei a reparar em coisas que realmente me acrescentavam e outras que estavam só acumulando. Fui me desligando de uma a uma.

Comecei a ter menos medo da vida e mais vontade de viver. Dar mais valor a cada pequeno detalhe aparentemente bobo, mas que faz toda a diferença. Voltei a ver as coisas que me acontecem com um brilho diferente no olhar e vi que dá pra ser feliz sim. Dá pra ser feliz até se acabar.

Estou indo e levando todas as coisas boas que ganhei e deixando todas as outras ruins aqui, mas com tudo na lembrança pra nunca esquecer a gratidão que eu sinto pelo que fui e o que me tornei.

Nayara Rosolen

 

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